05/10/2010

Viva a Carbonária!

Bandeira da Carbonária
Para os poucos que não conheçam esta bandeira, é a da Carbonária, uma organização criminosa de assassinos que se aproveitava da balbúrdia política, muita da qual fomentou, para satisfação de interesses ilícitos. Foi a maior organização criminosa nacional de há um século. Foram abençoados pelos fundadores da república. Como a sua bandeira nos revela, por ter sido adoptada para nacional, apenas com pequenas diferenças, formou a o núcleo do então Partido Republicano, impondo-se aos restantes partidos republicanos, dominando-os e tentando aniquilá-los para seu proveito.

Com idêntico sentido de justiça, de civismo e de honestidade, são agora apoiados pelo actual governo, que para essa comemoração estoira €10M [10 milhões de euros, distribuídos por três anos (2009, 2010 e 2011), segundo o portal do governo] do pouco dinheiro que os portugueses têm. Ou melhor, do que não têm, pois que muitos até as meias têm penhoradas. Como de costume, nada do que está mal é repudiado pelos partidos. Tal como a aprovação daquela lei do financiamento dos partidos, que não chegou a nascer, mas que todos os vigaristas do parlamento votaram menos um, aqui também nenhum contesta.

Já muito anteriormente a 1910, o Partido Republicano tinha conseguido juntar ao seu apoio a gente da mais baixa índole da época, não deixando de haver algumas excepções de crédulos bem intencionados. É também isso que se celebra com os nossos €10M. Por comparação, como diz o historiador Rui Ramos, assim como não se pode separar Salazar dos seus conhecidos pecados, que seria se estes fossem riscados e se passasse a citar unicamente as suas boas obras, como a construção das barragens e das escolas, o abono de família, o primeiro orçamento sem deficit após a catástrofe financeira nacional da república, a neutralidade que nos poupou à segunda guerra mundial e tantas outras obras dignas de mérito?

É o que nos estão a fazer – políticos falsos e jornaleirada em conluio, como sempre – com o branqueamento desse regime monstruoso e anti-democrático que pôs termo a um outro democrático. Durante a monarquia o regime era democrático e eles tinham assento no parlamento e a eleições livres. Contudo, na república o direito de voto foi retirado à maioria da população e completamente às mulheres, o controlo dos jornais, o genocídio em Angola. Os sindicatos eram perseguidos e aos religiosos aplicavam-se métodos similares aos da inquisição ou que o regime hitleriano usou com os judeus.

O retorno a esse regime seria mais atroz que ao do Estado Novo. Toda a gente chegou a ter medo de sair à rua pela frequência dos roubos e dos assassínios. Geraram a maior miséria nacional a todos os níveis. Assim, por inimaginável que hoje possa parecer àqueles que o desconhecem, a chegada do Salazar ao poder e a sua consolidação, não obstante os males que o acontecimento acarretou, foi abençoada pela quase totalidade da população. Conseguiu tirar o país da sua maior crise financeira de todos os tempos sem roubar os mais pobres como hoje se está a fazer, enquanto a frugalidade e o aumento dos impostos foram forçados aos que mais tinham. Tudo isto e o avanço económico dos seus primeiros tempos justificaram plenamente a popularidade de que então gozou. O atraso e os males vieram muito mais tarde e não foram logo contestados devido à memória dos mais velhos, que por longo tempo continuavam a se julgar no paraíso quando se recordavam do que tinham sofrido no tempo da implantação da república.

Afonso Costa era o chefão da ala mais radical da canalha que a pouco e pouco açambarcou o poder, tornando-se a peste nacional «que excluía e perseguia todos os outros da maneira mais violenta». A brutalidade selvagem desse bandido e do partido que encabeçava extinguiu os sindicatos e radicalizou os outros partidos republicanos, numa verdadeira acção ditatorial arcaica para a época e após a democracia que tinha derrubado.

Manuel de Arriaga, homem íntegro e primeiro presidente, foi aviltado e forçado a demitir-se. Grande número dos republicanos honestos foi assassinado pela Carbonária do Afonso Costa na chamada «noite sangrenta» de 19 de Outubro de 1921. O domínio do Partido Republicano foi a negação completa do ideal, de certo modo comparável ao resultado da Abrilada de 1974, anos depois.

O que agora se celebra com o nosso dinheiro é um regime que terminou com a democracia, um partido que dominou os opositores, assassinando-os sempre que não conseguia o poder de outro modo . Esta comemoração só se compreende se os celebrantes apoiarem os ideais dos autores das desgraças daquele tempo e do ataque pessoal, aliás, actualmente bem expresso pelo PSD de hoje, mas não solitariamente. Só se compreende se os seus autores se identificarem aos assassinos anti-democráticos dessa época negra.

E nós pagamos por isto.


Este e outros artigos também publicados nos blogs do autor (1 e 2).

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